Fértil
Galeria Conviv'art | Natal/RN | Brasil | 2025
Fértil
Servir a quem? Corpo, reprodução, resistência.
A exposição Fértil parte de uma pergunta incômoda e urgente: o que significa, para uma mulher, ser convocada a servir — à espécie, ao capitalismo, à norma? O corpo feminino é aqui investigado não como suporte passivo, mas como território insurgente, onde práticas biotecnológicas, desejos e política se entrelaçam.
Mariana do Vale assume a reprodução não apenas como função biológica, mas como performance normativa, historicamente imposta às mulheres. Ela transforma seu próprio corpo em laboratório e ferramenta de investigação, submetendo-se às técnicas da reprodução assistida. Sua prática artística não se dissocia da escrita: ambas se entrelaçam em uma metodologia encarnada, que a artista nomeia de “escrita performativa”.
Ao defender a reprodução entre duas mulheres como uma estratégia artística e política, desestabiliza os alicerces da heteronormatividade e da economia reprodutiva, apresentando obras que combinam o gesto radical da implicação — uma estética da sensibilidade e do embate. Uma forma de insurgência.
A exposição abarca os últimos seis anos de produção da artista — atravessando a defesa da tese, o nascimento da filha e a experiência da maternidade compartilhada. Esse percurso, combinado a uma ação colaborativa de reativação de visualidades em um laboratório de criação, permitiu entrever e imprimir afinidades e diálogos com um grupo de artistas: Aldenor, AnaLu, Elisa, Evelyn, Lee, Nikarla e Priscilla atenderam ao convite para acionar gestos e resistências inscritos no corpo reprodutivo, fazendo uso de diferentes técnicas e dispositivos: agulhas, bulas, cartelas de medicamentos, seringas, exames, laudos, testes de gravidez, placenta e leite humano.
O gesto curatorial e expositivo evidencia ambos os processos — o individual e o coletivo — convocando o visitante a ver, escutar e sentir através do corpo.
Esta exposição não oferece respostas nem consolo: ela propõe fricções.
Ao deslocar a reprodução do campo da obrigação para o da criação e do gesto político, Mariana tensiona a lógica de serviço imposta às mulheres.
Trata-se, enfim, de uma estética da insubordinação, que nos convida a imaginar outros modos de gerar vida — biológica, simbólica, coletiva e feminista.
Ana Paola Ottoni











